Caminhando na volta da faculdade,
cabisbaixa pensando no que uma senhora magrela havia me dito na esquina
anterior. Dizia ela que tem raiva dessas moças de hoje em dia, todas com os
corpos lindos e durinhos, e que ela já estava toda “caída” e “pelancuda”.
Respondi à ela, com toda minha sabedoria juvenil: “Minha hora também vai chegar!”.
Ela não se satisfez com a minha resposta, disse que não se conformava pois nem
quando tinha sido jovem tinha tido o corpo bonito, que era toda magrela e sem
bunda. Eu disse a ela que mesmo assim ela era linda, que cada um tem uma beleza
peculiar. Ela apenas sorrio, talvez por alguns minutos ela tenha parado pra
pensar nas minhas resposta, e apenas isso já me deixa em paz.
Durante o caminho observo várias
folhas caídas pela calçada, uma delas me chama atenção por já estar seca e
murcha. Imediatamente fiz uma ligação com a conversa que tinha acabado de ter
com aquela senhora a segundos atrás. Paro no meio da calçada e fico a pensar.
Me abaixo e pego pra mim aquela folha seca. Na mesma hora me identifiquei com
você, me vi fazendo exatamente o que você fez comigo aquele noite. Peguei uma
coisa do chão, que provavelmente não teria valor nenhum pra mais ninguém na
face da terra, mas pra mim, aquela folha seca e murcha significava a lição que
aquela conversa com aquela senhora tinha me passado. Lições esta que na verdade
já estavam na minha consciência, mas parece que eu precisava exteriorizar ela
pra alguém, como que pra fixar aquela resposta.
A beleza exterior e material um dia
vai se acabar, ou se modificar pra uma forma que não será mais tão agradável.
Todos tem algum tipo de beleza, todo
mundo tem alguma característica, seja física ou não, que faz daquela pessoa um
ser único na face da terra. Temos que aprender a valorizar nossa beleza,
exterior e interior. Ninguém mais no mundo vai possui-la. Ela é individual.
Lembrei também de uma conversa, ainda
hoje mais cedo, com uma colega de sala. Ela dizia que pensa que existem pessoas
que são iluminadas e outras não. Disse que fica reparando as pessoas entrarem
na sala, e que algumas brilham e outras não. Me senti muito feliz quando ela me
disse que sou uma das pessoas que brilham quando entram na sala. Eu concordo em
partes com ela, e vou um pouco além. Acredito que a luz que cada pessoa
brilhosa carrega no peito não veio de graça, pelo menos a minha eu sei que não.
Pessoas que brilham tem uma grande
batalha durante a vida. Para que ela pudesse atingir aquele estado de luz muita
coisa aconteceu. Muito aprendizado a vida deu. Por muitas vezes ela se sentiu
triste, mas a vontade de ser feliz e de se sentir feliz era tão maior que ela
não permitia que aquela tristeza tomasse conta do corpo exterior dela.
Pelo menos eu sou assim. Todo mundo é
assim. Nem todos os dias são lindos, nem todos os dias estamos de bom humor,
nem todos os dias tudo dá certo, e se tem tempo, se tem grana, se tem sol, se
ouve música. Existe também os dias cinzas, aqueles em que sentimos saudades que
o coração dói, aqueles que sentimos vontade de estar com alguma pessoa especial
e essa pessoa sequer se lembra que você existe, e provavelmente você não é e
nem nunca foi nem um pouco especial pra ela. Dias em que aparecem contas que
não temos grana pra pagar, dias que perdemos o ônibus e ficamos mais 1 hora
esperando o próximo. A minha técnica pra isso é a seguinte: eu não deixo mais
que acontecimentos exteriores à minha consciência e meu coração sejam capazes
de estragar a forma de ver a vida.
Vamos combinar! A vida é linda! A
vida é maravilhosa. Eu, por muitas vezes tenho aplicado essa técnica, existem
tantas coisas boas pra agradecer e eu tenho me considerado uma pessoa tão
abençoada pela vida que eu já não me permito mais reclamar de nada nessa vida.
Tem saúde.
Tem comida.
Tem amor no coração.
Tem quem amar.
Porque eu devo apagar minha luz pra
qualquer problema que aparecer?
Não! Definitivamente problemas
exteriores ao meu ser simplesmente não vão mais modificar minha forma de ver a
vida.
A vida é linda! A vida é maravilhosa!
A vida é bela! De verdade.
Um dia eu também vou envelhecer, e o
corpo vai ficar seco e murcho exatamente como aquela folha, que eu trouxe pra
casa comigo, lembrando da sua lição, mas quando esse dia chegar eu vou estar
tão feliz quanto estou hoje, vou estar brilhando tanto quanto hoje, ou mais!
Nada será capaz de tirar o sorriso do
meu rosto. Com dentes tão lindos, preciso mostra-los sempre que tiver a oportunidade.

