quarta-feira, 18 de março de 2015

A folha seca

Caminhando na volta da faculdade, cabisbaixa pensando no que uma senhora magrela havia me dito na esquina anterior. Dizia ela que tem raiva dessas moças de hoje em dia, todas com os corpos lindos e durinhos, e que ela já estava toda “caída” e “pelancuda”. Respondi à ela, com toda minha sabedoria juvenil: “Minha hora também vai chegar!”. Ela não se satisfez com a minha resposta, disse que não se conformava pois nem quando tinha sido jovem tinha tido o corpo bonito, que era toda magrela e sem bunda. Eu disse a ela que mesmo assim ela era linda, que cada um tem uma beleza peculiar. Ela apenas sorrio, talvez por alguns minutos ela tenha parado pra pensar nas minhas resposta, e apenas isso já me deixa em paz.
Durante o caminho observo várias folhas caídas pela calçada, uma delas me chama atenção por já estar seca e murcha. Imediatamente fiz uma ligação com a conversa que tinha acabado de ter com aquela senhora a segundos atrás. Paro no meio da calçada e fico a pensar. Me abaixo e pego pra mim aquela folha seca. Na mesma hora me identifiquei com você, me vi fazendo exatamente o que você fez comigo aquele noite. Peguei uma coisa do chão, que provavelmente não teria valor nenhum pra mais ninguém na face da terra, mas pra mim, aquela folha seca e murcha significava a lição que aquela conversa com aquela senhora tinha me passado. Lições esta que na verdade já estavam na minha consciência, mas parece que eu precisava exteriorizar ela pra alguém, como que pra fixar aquela resposta.
A beleza exterior e material um dia vai se acabar, ou se modificar pra uma forma que não será mais tão agradável.
Todos tem algum tipo de beleza, todo mundo tem alguma característica, seja física ou não, que faz daquela pessoa um ser único na face da terra. Temos que aprender a valorizar nossa beleza, exterior e interior. Ninguém mais no mundo vai possui-la. Ela é individual.
Lembrei também de uma conversa, ainda hoje mais cedo, com uma colega de sala. Ela dizia que pensa que existem pessoas que são iluminadas e outras não. Disse que fica reparando as pessoas entrarem na sala, e que algumas brilham e outras não. Me senti muito feliz quando ela me disse que sou uma das pessoas que brilham quando entram na sala. Eu concordo em partes com ela, e vou um pouco além. Acredito que a luz que cada pessoa brilhosa carrega no peito não veio de graça, pelo menos a minha eu sei que não.
Pessoas que brilham tem uma grande batalha durante a vida. Para que ela pudesse atingir aquele estado de luz muita coisa aconteceu. Muito aprendizado a vida deu. Por muitas vezes ela se sentiu triste, mas a vontade de ser feliz e de se sentir feliz era tão maior que ela não permitia que aquela tristeza tomasse conta do corpo exterior dela.
Pelo menos eu sou assim. Todo mundo é assim. Nem todos os dias são lindos, nem todos os dias estamos de bom humor, nem todos os dias tudo dá certo, e se tem tempo, se tem grana, se tem sol, se ouve música. Existe também os dias cinzas, aqueles em que sentimos saudades que o coração dói, aqueles que sentimos vontade de estar com alguma pessoa especial e essa pessoa sequer se lembra que você existe, e provavelmente você não é e nem nunca foi nem um pouco especial pra ela. Dias em que aparecem contas que não temos grana pra pagar, dias que perdemos o ônibus e ficamos mais 1 hora esperando o próximo. A minha técnica pra isso é a seguinte: eu não deixo mais que acontecimentos exteriores à minha consciência e meu coração sejam capazes de estragar a forma de ver a vida.
Vamos combinar! A vida é linda! A vida é maravilhosa. Eu, por muitas vezes tenho aplicado essa técnica, existem tantas coisas boas pra agradecer e eu tenho me considerado uma pessoa tão abençoada pela vida que eu já não me permito mais reclamar de nada nessa vida.
Tem saúde.
Tem comida.
Tem amor no coração.
Tem quem amar.
Porque eu devo apagar minha luz pra qualquer problema que aparecer?
Não! Definitivamente problemas exteriores ao meu ser simplesmente não vão mais modificar minha forma de ver a vida.
A vida é linda! A vida é maravilhosa! A vida é bela! De verdade.
Um dia eu também vou envelhecer, e o corpo vai ficar seco e murcho exatamente como aquela folha, que eu trouxe pra casa comigo, lembrando da sua lição, mas quando esse dia chegar eu vou estar tão feliz quanto estou hoje, vou estar brilhando tanto quanto hoje, ou mais!

Nada será capaz de tirar o sorriso do meu rosto. Com dentes tão lindos, preciso mostra-los sempre que tiver a oportunidade.
 

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